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Chegar à Nova Zelândia tem um sabor agridoce. É o país que o imaginário do Hugo sempre projectou mas é, também, o nosso último país a visitar nesta viagem. Não estamos, ainda, preparados para regressar.

Tínhamos duas opções: ou víamos a Nova Zelândia como devia ser – sabe-se lá quando conseguiremos regressar e é um óptimo país para, de facto, correr de lés-a-lés – ou tentávamos dar um salto à América do Sul e ver duas cidades ou três, a correr, sem tempo ou dinheiro para gastar. Diga-se que este último factor foi aqui preponderante. Não se deu o caso de não termos feito bem contas à vida ou de termos gasto muito acima do que contávamos gastar. Em casa é que surgiram contas inesperadas que tinham que ser imediatamente cobertas sob pena de virem a tornar-se problemas desnecessários. Não havia volta a dar. Optámos, pois, por ver, calmamente, a Nova Zelândia.

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E a Nova Zelândia, meus queridos, é qualquer coisa. Temos milhares de fotografias e se assim o é tal deve-se à beleza natural extraordinária deste país que é tão diferente do seu vizinho do Norte. Não há bicheza muito estranha e as pessoas ainda são em menor número. E é a terra onde foram filmados os filmes do Senhor dos Anéis e do Hobbit. Como não podia deixar de ser, o Hugo é um fã inveterado do Universo da Terra Média pelo que, esta que vos escreve, andou à cata dos locais exactos onde o Frodo fez isto e onde o Nazgûl fez o outro e onde o Gandalf fugiu do zé-das-quantas. Com livro de coordenadas e GPS e tudo. Muito divertido mas altamente geek.

Mas iríamos encontrar um geek maior: Seu Fabrício Crema, amigo de uma amiga que nos recebeu, com doce sotaque brasileiro e coração italiano, em Auckland. Esse sim, minha gente, verdadeiro conhecedor de tudo o que se passou nos filmes, como e porquê. Num jantar em sua casa achei, a dada altura, que o meu rapaz e o nosso novo amigo tinham deixado de falar Português. Estavam numa de hobbitês.

HugoCPhoto_2015-08-10_06-02-46_615 of 965_24346Taberna em Hobbiton “Green Dragon Inn”

HugoCPhoto_2015-08-14_05-11-48_369 of 1504_28362O local onde Frodo se escondeu do Nazgûl

HugoCPhoto_2015-08-14_04-10-01_332 of 1504_28325Reconhecem?!

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HugoCPhoto_2015-08-25_04-29-07_240 of 1099_27134Cidade repleta de obras de SteamPunk? Oamaru, pois claro!

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A Nova Zelândia tem duas Ilhas, a do Norte a do Sul e é atravessada de fio a pavio por uma cordilheira. Mas como é, em termos de dimensão, bastante pequeno foi possível dar a volta às duas ilhas e ter delas uma muito boa ideia que, entre si, são bastante diferentes. De uma para a outra atravessa-se de barco e observam-se os fiordes lindos e as ovelhas nas montanhas. Eu e o Hugo, chegámos a Auckland de avião – pequenino quid pro quo logo à saída da Austrália com a exigência de um voo de saída da Nova Zelândia que nos obrigou a uma compra de um voo às pressas – e por aí tomámos a decisão de, por estarmos mais a Sul e o Inverno se estar a mostrar mais rigoroso, alugarmos um carro e irmos ficando em hostéis. Em termos de gastos seria praticamente igual pelo que optámos pela Omega Rental Cars, na escolha do carro e aí fomos nós. Tudo isto foi decidido com a ajuda dos sempre incansáveis amigos os I-sites, espalhados por todo o país. Em Auckland um muito simpático Chris ajudou-nos a decidir pela melhor e mais sensata opção.

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HugoCPhoto_2015-08-09_03-12-20_285 of 965_24016Cathedral Cove, das Crónicas de Narnia

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Um muito querido Fabrício Crema, que nunca nos tinha visto, levou-nos a jantar quando chegámos, deu-nos imensas dicas super valiosas no que se referia aos nossos planos e foi nessa mesma noite que me apercebi que ia andar à cata do Gollum. Oh, oh, pensei eu. Valeu, seu Fabrício! You’re the man!

Partimos de Auckland para regressar no meu aniversário, quase um mês depois. Decidimos que veríamos a cidade melhor no regresso e dali partimos para o seguinte percurso: Coromandel Peninsula, Matamata e Rotorua, Lake Tarawera, Waimangu, Lake Taupo, Tongariro National Park, Wellington; Ilha do Sul: Picton, Nelson, Greymouth, Fox Glaciar e Franz Josef, Mount Cook National Park, Lake Wanaka, Mount Aspiring, Maori Point, Queenstown, Invergargil, Catlins Forest Park, Dunedin, Otago Peninsula, Omaru, Lake Tekapo, Kaikoura, Christchurch.

Este post, por estar tão atrasado, vai ser muito mais reduzido, até porque a beleza da Nova Zelândia está nas paisagens. É um país onde vimos montes de focas e pinguins raros amarelos que só se avistam se estivermos escondidos, onde vivem os Maoris que fazem o Haka e onde as terras têm 45 letras, mantendo o nome Maori. É a terra onde há mais ovelhas que pessoas. É a terra de Mordor e dos hostéis governados por visitantes/woofers que trocam trabalho por alojamento. É a terra onde se avistam, de perto, as auroras australis. É a terra onde a estradas acabam sem avisar e onde, de súbito, onde só haviam montanhas nasce, incrivelmente, o mar.  Terra que um sismo abalou em 2008 e cujos estragos ainda se encontram à vista dos que passam em Christchurch. É o local onde se pára o carro de cinco em cinco minutos para tirar fotos e onde as vacas pousam para as fotos. É a terra dos Hobbits e em que toda a gente se orgulha disso. Terra das rochas em formas incríveis – absolutamente redondas ou recortadas em forma de panquecas. É a terra do estúdio Weta Cave que colocou a Nova Zelândia no mapa, em conjunto com Peter Jackson. Ir à Hobbiton é surreal mesmo que esteja a chover granizo! É a terra onde faz mesmo muito frio ( tentar dormir no carro foi idiota e uma lição para a vida), onde se fazem as mais belas e longas caminhadas que, por vezes, acabam num magnífico pedido de casamento. Foi o nosso caso; depois de uma caminhada fabulosa de 16 kms, à beira de um Lago Waimangu impassível e perfeito, polvilhado de cisnes negros delicados, fui pedida em casamento e não podia ter sido mais perfeito. Indescritível e soberbo como só o Hugo poderia planear.

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HugoCPhoto_2015-08-13_00-47-03_210 of 1504_28203Tongariro National Park (a casa do Mt. Doom)

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HugoCPhoto_2015-08-15_23-21-56_442 of 1504_28435Nelson, na costa da Baía da Tasmania, o local onde foi forjado o Anel

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Não é perfeito? Havia melhor forma de terminar esta volta ao Mundo? Havia, pois claro. Por isso não a terminámos. Vamos parar um pouco – estamos a apontar para uns anos (talvez até menos 🙂 ) – e retomar, logo que possível, o caminho até à Patagónia.

Estamos em casa há uns meses. A sensação estranhíssima de, nos transportes para o trabalho, num dia normal e corriqueiro, recordar o que vivemos, ver fotos no telefone e pensar: “Isto aconteceu mesmo? Foi real? Estivemos mesmo na Índia e na Nova Zelândia?  Subimos mesmo uma das montanha dos Himalaias? Vimos mesmo o nascer do Sol do topo de mais que um vulcão?”. Não parece real, parece que foi noutra vida. E é essa vida que nos cativa. Ir e voltar mas com planos de ir, de novo, ver mais. O Mundo é tão grande, tão belo, tão perfeito, tão diferente, tão deslumbrante que não há como dispensar as oportunidades todas que tivermos de ir ver o que há para lá da linha do horizonte. Sabe tão bem voltar a casa, sabem tão mas tão bem os abraços dos nossos mas uma parte do nosso coração não regressou a Portugal. Essa parte mantém a mochila às costas, continua a ver os horários dos comboios e a escolher comidas em menus ininteligíveis, a ser feliz andando, acordando sempre noutro lugar. A aprender a ler expressões em rostos tão diferentes, a deixar-se levar numa cultura, a ficar em silêncio a absorver a Mãe Natureza, bruta e crua, em todo o seu esplendor, a manifestar-se em árvores, animais e lagos de cores impossíveis para nos dizer que ela sim é a venerável. Ela sim é digna. Ela é este Mundo que não vamos querer parar de conhecer. Foi ela que fez as pessoas diferentes, as terras de cores diferentes e os mares com sais distintos. Foi ela que nos fez a todos e, lentamente, vamos esquecendo a dádiva incrível que é estar neste exacto momento, enquanto ainda há o que ver, no planeta Terra.

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HugoCPhoto_2015-08-17_05-58-11_778 of 1504_28771Punakaiki Pancake rocks

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Perguntaram-nos, há dias, o que tinha, em nós, mudado. Acho que os efeitos ainda não são todos visíveis mas o mais evidente estará a tolerância com o outro, uma ideia clara que o modelo ocidental não é o único, que há tantas outras formas de viver e estar na vida. Que não há fórmulas erradas mas que se não cuidarmos do planeta, então, tudo isto não vai ser visto pelos nossos filhos. Quando visitámos o Fox Glaciar vimos que o mesmo recuou dois quilómetros desde 1750. É incrível e avassalador. Quando estivemos a observar os pinguins disseram-nos que estão, também eles, em vias de extinção. A próxima geração, provavelmente, só os conhecerá de fotografias.

O que nos mudou para sempre nesta experiência foi ter a percepção do Mundo – na pequena parte que visitámos – e não ter outra opção do que estar profundamente agradecidos por termos tido esta oportunidade. Trabalhámos muito para aqui chegar mas tivemos muita sorte. É uma benção sem Deus. É um Mundo maravilhoso.

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HugoCPhoto_2015-08-22_07-13-42_1470 of 1504_29463Ir de carro para a praia ganhou, aqui, outro significado

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Nenhum de nós conseguiu ainda, passar um dia sem pensar em tudo o que vimos. E com isso vem um misto de pena e emoção. Ambos desejámos já, tantas e tantas vezes, ainda ter a mochila às costas e estar, amanhã mesmo, na fronteira de outro local qualquer. Eu tive muito medo de começar esta viagem, do que nos faria e do que faria às nossas vidas. Mas não mudaria nada nesta experiência e estarei para sempre grata por tudo o que a mesma me trouxe. Os resultados ainda não são evidentes mas em nós mudou, irremediavelmente, a vontade de estar, ser e viver em todo o lado. A Nova Zelândia em particular, desarmou-nos. Não esperávamos emocionar-nos à beira de um lago, com o nascer de uma manhã gelada noutra montanha. A Nova Zelândia foi a forma perfeita de encostar a porta a esta viagem mas será o nosso mote para, num deste dias, a retomar.

Hoje, dia 4 de Fevereiro de 2016, faz precisamente um ano que iniciámos a viagem. Que andámos com a vacina nas mãos, em gelo, pelo aeroporto de Londres. E esse dia mudou, para sempre, as nossas vidas. Daí em diante, tornámo-nos eternos viajantes. O tempo voou mas já estamos a planear a próxima viagem!

Mas falaremos mais disto, num post em breve. Até já e muito obrigada por nos acompanharem!

HugoCPhoto_2015-08-22_07-25-09_1489 of 1504_29482DdM – Degraus do Mundo 2015 numa praia em Invercargill enquanto esperávamos pela noite para ver a aurora australis